domingo, 12 de janeiro de 2014

Cotidiano em fotos (II)

A primeira foto trata-se de jovens da comunidade jogando basquete na quadra da Escola Estadual Clériston Andrade, no início dos anos 80.
 
 

A foto abaixo mostra minha mãe e minha irmã no ponto de ônibus. Havia uma linha Itacaranha x Terminal da França e o final de linha era na venda de Seu Esqueleto. O asfalto era recente e ainda não tinham muitas casas construídas. Basta olhar para o fundo da foto para ver ainda vegetações. A foto é de abril de 1983.


Meu pai, Eduardo Leiro, demarcando o campo de futebol Lagoa Dourada. Ele acordava cedo para realizar este trabalho antes dos jogos começarem. Era uma Liga bem organizada. A foto é do início dos anos 80.


Cotidiano em foto

Como eu disse antes, as festas de 15 anos eram pomposas, dentro da nossa realidade: as meninas e os rapazes impecáveis, apesar da origem humilde. Era um momento esperado, quando uma menina completava 15 anos. A minha terceira irmã não quis, o que já significava talvez uma mudança de olhar sobre o evento. O sentido real, o de apresentar a jovem aos rapazes da sociedade, se perdia. O que a gente queria mesmo era um bom motivo para fazer uma festa.
 


Infância e adolescência no subúrbio

Eu costumo dizer que meninos e meninas não vivenciam uma mesma situação do mesmo jeito, pois a cultura de gênero acaba orientando as sensibilidades.
 
É claro que meninos e meninas iam à praia, mas a maneira de viver aquele espaço dependia muito da cultura de gênero. Quando se é criança, essas culturas começam a ser definidas, mas é na adolescência que o rito se torna mais diferenciado e talvez isso leve ao que chamamos de "crise na/da adolescência": saber que as fronteiras estão cada vez mais nítidas e separadas.
 
Mas vamos aos ritos: quando era criança brincava de tudo, não havia tanta distinção de gênero, até porque não tínhamos irmão. Éramos 4 meninas. Tal como a música Teco-Teco, interpretada por Gal Costa, com a exceção da cantoria afinada, a nossa brincadeira consistia em subir em árvore, brincar de picula, de "se esconder", confeccionar e empinar arraia (temperávamos a linha), ir à praia, pular corda, enfim eram brincadeiras bem dinâmicas que envolviam espacialidade e motilidade. As bonecas só começaram a fazer parte (coincidentemente ou não) depois da chegada da televisão.
 
Na adolescência, depois dos 14 anos, deixei de brincar com os meninos (o que fazíamos costumeiramente), já estava me preparando para debutar. Tive direito à valsa de 15 anos e a dançar com 15 rapazes.
 
Costumo dizer que, para mim, naqueles anos, o subúrbio era ideal para uma criança, mas para uma adolescente ou um adolescente era terrível porque as oportunidades de desenvolvimento eram muito poucas. Refiro-me especialmente às oportunidades de estudo e de trabalho. Lembro-me que os rapazes começavam a trabalhar ajudando no negócio familiar, em geral mercearias, "vendas" ou atuando  no setor rodoviário ou militar. Para as meninas, as chances eram mais remotas ainda, pois, em geral, quase todas tinham como única opção o casamento e se tornavam, quase sempre, donas de casa.

É importante ressaltar que muitas mulheres ajudavam os maridos no pequeno comércio, isso quando não eram donas do próprio negócio.
 
Entre os 12 e 18 anos, estudei no Clériston Andrade e no João Florêncio Gomes, portanto boa parte da minha vida foi escolar, mas, nos finais de semana, tinha muito movimento durante o dia, com os jogos no campo da Lagoa Dourada. À noite, fazíamos festas, tipo discoteca, e reuníamos muita gente, mas como o espaço da nossa varanda não cabia todo mundo, muitos ficavam do lado de fora. Um amigo de nome Brás, uma pessoa extraordinária e muito centrada, organizava e servia como mediador. Entrar nesta festa era o início de uma amizade e foi assim com Oliveira que, mais tarde, fez parte de nossa quadrilha junina.
 
No Domingo, era dia de praia e descíamos cedo para termos mais chances de escolher um bom lugar. Era sempre divertido ir à praia de Itacaranha. Quando era meninota, duas rodas de trator faziam parte da paisagem da praia e quando a maré estava bem alta dava para saltar de cima delas.
 
Já durante as férias, íamos para a casa de parentes e quando não era possível intensificávamos o que vivíamos nos finais de semana e, claro, conversávamos muito sobre namoro, afinal, sem os amores, a adolescência não seria uma adolescência. Sobre este assunto, falarei mais tarde em outra postagem.
 
Falávamos de namoro e também namorávamos. Devo salientar que faço parte do que se convencionava chamar de "moça de família", o que me colocava já em uma posição nas relações sociais e indiretamente em conflito com as que eram consideradas, por pura convenção, como meninas mais descoladas (para citar um termo mais atual). Naqueles anos, dizia-se que eram meninas mais "atiçadas" e era óbvio que se perguntássemos a essas meninas se elas se viam assim, certamente diriam que não, mas o rótulo, ambos os rótulos, eram terríveis. 
 
Em Itacaranha, não tinha clubes, espaços de lazer institucionalizado, por isso íamos para o Flamenguinho, um clube que ficava em Periperi. Os carnavais neste espaço eram simplesmente inesquecíveis. As músicas, as serpentinas, os confetes, as pessoas (destaque para uma senhorinha de aproximadamente 70 anos que todo ano estava lá e brincava sozinha no meio de todos os adolescentes e jovens. Ninguém a espremia, havia ainda educação e respeito aos mais velhos, por isso ao longo de muitos anos a víamos por lá, com passinhos lentos e bracinho pra cima, dando voltas no salão). Havia ainda o "baile do mela-mela" no turno vespertino que era divertidíssimo, não apenas pela sujeira e o aspecto lúdico, mas porque os rapazes e moças aproveitavam este momento para flertarem, tocando-se, e o espaço do corpo mais "atacado" era o rosto (quando passávamos por perto do rapaz que gostávamos, quase oferecíamos generosamente o rosto para a tinta (rs)) ... É interessante como a sociedade cria ritos que consentem certos gestos que em outro momento e espaço seriam ofensivos. O Flamenguinho era um clube, naqueles anos, familiar. À noite, de menor, só entrava com os pais. Era o nosso caso. Sem dúvida, o Flamenguinho prestou um serviço de lazer com qualidade aos moradores do subúrbio ferroviário naqueles anos. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

COMENTÁRIOS DE SANDRA DE PLATAFORMA

Olá Lúcia! Adorei o seu blog!!! Ao fazer a leitura senti uma emoção muito grande e foi como se reavivasse em mim cenas da minha vida que estavam esquecidas no âmago do meu ser. Muito bom!!!! Um grande abraço, Sandra ( do subúrbio também, só que de Plataforma ) Ok!!
A nossa memória é o que temos de mais precioso, já que ela nos faz dar sentido às coisas. Sem memória não significamos, não mudamos sequer a realidade. Não vemos o que fomos e onde chegamos e, por conseguinte, perdemos a dimensão de futuro.

A memória também é a nossa área de recreação. Nos divertimos com ela, sorrimos, mas também nos emociona, nos faz sentir saudades. Sinto falta das águas cristalinas da praia de Itacaranha, hoje suja e completamente decadente. A vizinhança cordial, as crianças sem malícia acintosa, os adolescentes inventivos, os jovens com sede de viver. Os idosos respeitados como lideranças comunitárias e não menosprezados e envergonhados com tantas ofensas a imorredoura ancestralidade.

Eu não gostava de Itacaranha quando jovem porque ela representava um entrave às minhas ambições: de estudar, de profissionalizar-me, de conhecer o mundo. A Itaracaranha a qual me refiro é a que está na minha memória e não existe mais. Ela só poderia ser sentida em sua plenitude, paradoxalmente, afastada dela, como um lugar mítico, no passado, deliciosamente bom, acolhedor de se visitar. Itacaranha era o lugar que toda criança deveria estar.

JORNALISMO POPULAR

Hoje em dia tem-se falado em popularização da ciência, democratização disso e daquilo outro, mas em Itacaranha, dos anos 70, um grupo de jovens resolveu fazer um jornal de crítica, porém bem humorado, bem ao gosto dos seus organizadores.

Por acaso, encontramos um exemplar, cuja capa foi digitalizada e divulgada na postagem anterior. Alguém se lembra desse jornal? Quem nunca ouviu falar em seus redatores?

Eu era muito jovem, 14 aninhos, nem tinha dançado a valsa de 15 anos, quando este jornal circulou em Itacaranha. Havia uma quantidade limitada de tiragens, mas seus mentores deram um exemplo de como se desenvolve uma atividade comunitária com base na informação e na interação, ainda que tecnicamente artesanal. O jornal era datilografado, diagramado e desenhado sem qualquer recurso sofisticado, a não ser os dedos das mãos, e para não dizer que era de todo artesanal, havia a presença de uma Remington de segunda, quiçá décima mão, e o famoso mimeógrafo (alguém se lembra dele?).

Mas o jornal também se tornou um laboratório para aqueles que tinham a veia jornalística mais aflorada, como é o caso de Adilson Fonseca, que se tornou jornalista mais tarde.  Porém antes disso, "Dico", como era popularmente conhecido, contribuiu para uma formação política dos leitores, juntamente com Renê de Oliveira, Luiz Carlos Fonseca e Hiran Coutinho, na medida em que fez circular, no bairro, informações referentes às questões do subúrbio (outras mundiais, nacionais), que, na época, muito mais que hoje, era completamente esquecido pelos jornais vultuosos.

O Clarim, metáfora da alta voz, falava das coisas que aconteciam em Itacaranha e que nem sempre saiam nas páginas dos jornais e na TV. Era o atual facebook (guardando as devidas proporções), orkut, torpedo numa época em que a ditadura estava em seu declínio, mas ainda pairava no ar a censura. O Clarim, que rima com Pasquim, tinha um pouco do deboche, do pastiche, da ironia, numa crítica inteligente à conjuntura, feita por jovens suburbanos esclarecidos que estavam antenados com as questões sociais e políticas da época.

O CLARIM - JORNAL DE ITACARANHA

domingo, 5 de dezembro de 2010

ITACARANHA "DE CIMA"

Nos mudamos para a Rua Rio Madeira, 19-E, Itacaranha, mais precisamente numa encruzilhada. A nossa casa ficava de esquina com a Rua Sergi Mirim, que dava no Colégio Clériston Andrade onde estudei da 4ª a 6ª série. A casa era ampla, maior do que a que tínhamos na Rua da Estação. Além de tudo tinha um número, 19-E. :D. A rua não era asfaltada, era uma estrada de cor clara, pois predominava um solo arenoso. Andávamos sempre descalças, o que era maravilhoso. Só fui usar sandálias, obrigatoriamente, por causa do asfalto, muitos anos depois.

A casa era toda cercada por varanda feita de telha de eternit, mas o telhado da casa era feito de telhas de cerâmica (depois do trauma, minha mãe não queria ouvir falar das telhas de eternit). A área da varanda era cimentada, com cimento vermelho, com aproximadamente 2m de largura. O quintal era murado e não era plano. Era aberto, sem plantas, árvores e por isso fazia muito calor. Lembro-me dos dias ensolarados, do calor vindo daquele chão arenoso logo quando fomos morar lá. Ainda bem que meus pais escolheram um dia assim para mudança.

Era uma linda casa!

A casa ficava em frente a um campo de futebol que margeava com uma lagoa, chamada de Lagoa Dourada. Era uma lagoa mágica de onde nasciam capins. Não entendia como da água nascia capim. Ouvíamos sapos coaxarem e grilos a criquilar sempre quando, à noite, íamos brincar de "cabana" ou "coelhinho sai da toca", brincadeiras de correr, parecido com picula, mas com direito a posse daquele que se pega, confinado a uma "cabana" ou "toca".

Lá faltava muita energia e água também. Por isso, meu pai pediu para fazer uma "fonte" que, diferentemente da casa da Rua da Estação, tinha água de qualidade. Algumas pessoas, vizinhas e amigas, iam pegar água lá em casa. Com o tempo, fomos plantando e muitas árvores floresceram naquele quintal, mas sobre elas dedicarei uma postagem especial. Quando "faltava luz", brincávamos de fazer sombra na parede com os "fifós" acesos à base de querosene. Meu pai contava estórias de assombração.

A ponte MMMMMMMMMMMMMM

A ponte não ficava exatamente em Itacaranha, mas entre Plataforma e os Alagados, mas é impossível não se lembrar da ponte "MMM", por onde os trens passavam com destino a Estação da Calçada. A ponte "MMM" (lê-se: mêmêmê) era assim chamada por nós porque tinha a forma da letra "M" e toda a vez que o trem passava por ela, fazia um eco que parecia pronunciar a letra "mê" ininterruptamente. Era como se a ponte falasse, com uma voz grave e ecoante.

Assim que o trem começava a cruzar a ponte, ouvia o primeiro eco, ritmado e retumbante pronunciando "mêmêmêmêmêmê". Era tão divertido que também pronunciava baixinho, seguindo o mesmo ritmo, o som emitido. Às vezes falava baixinho pra ninguém ouvir, outras vezes, caso estivesse com as minhas irmãs, falava alto, alegremente. Criança sempre se diverte com coisas aparentemente banais para os adultos.

O poço de óleo



Uma das coisas inesquecíveis naquela ida a estação do trem era um quadrante cheio de óleo sobre o qual os trilhos do trem passavam. Muitas pessoas, para não pagarem a passagem, se arriscavam a passar por cima dos estreitos trilhos, embora não soubéssemos a profundidade daquele "poço". Na minha imaginação, funcionava como uma "areia movediça" (como nos filmes de Tarzan), e que, uma vez caindo naquele óleo, não sairia mais. Eu não me lembro de ter passado por ali, em busca de alguma aventura, mas me lembro do tamanho do quadrante (na minha imaginação de menina, era grande) e de sua textura. Era oleoso, escuro e sujo, qualquer coisa misteriosa e perigosa que, naturalmente, só poderia aguçar a minha imaginação.

O Chafariz

Havia um chafariz próximo à nossa casa. Lembro-me que íamos cedo, antes de meu pai se aprontar para o trabalho. As lembranças me trazem imagens de muitas mulheres com crianças, conversas, barulho da água caindo forte dentro das vasilhas e a minha preocupação com o desperdício, pois não havia torneira, a água era corrente, havia apenas uma canalização para que não se espalhasse. Era uma disputa para quem colocava primeiro, pois a visão que tenho é de latas (de galão de tinta) velhas, com uma madeira entre uma extremidade e outra, entrechocando-se. A água era limpa, cristalina. As mulheres enrolavam as rodilhas de pano e colocavam na cabeça. Observava com que força descomunal levantavam uma lata daquele tamanho na altura da cabeça, todos os dias. Meu pai fazia isso, e aquelas mulheres faziam o que meu pai fazia. Eu tinha uma vasilha pequena mas meu pai nos levava assim mesmo. Eu não sei se a minha irmã mais velha se lembra destes momentos. A verdade é que não fui muitas vezes lá.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Professora Edna

A professora Edna Cardoso foi a nossa primeira professora de Itacaranha. Assim que chegamos, minha mãe quis saber logo onde ficava a escola mais próxima. A única naquele momento ficava nos fundos de uma casa e tinha oito alunos aproximadamente. Estudávamos em uma mesa de madeira grande e sentávamos em bancos longos. A professora Edna era muito boa, simpática, mas os nossos colegas eram muito cruéis. O bullying, que é tão falado hoje, era muito praticado nas escolas e como nós éramos menores e menos descoladas do que os alunos maiores, éramos sempre vítimas de alguma ardilosidade.

Ainda hoje tenho o classificador de atividades feitas nesta escola que se chamava Escola Ruy Barbosa que guardo com muito carinho.

O Vendaval

Seria um dia como outro qualquer. Tinha ido para escola, mas ainda era cedo para aquele céu tão cinzento. Começou a ventar muito forte e as nuvens a ficar mais escuras, a tal ponto de acharmos que já era tarde. A escola nos liberou logo porque temia pelo nosso retorno à casa, pois já previam que uma forte chuva estava a caminho.

Durante o recreio, lembro-me do vento no meu rosto e fazia o meu cabelo esvoaçar. Gostava daquela sensação de frescor, sem qualquer dimensão de perigo.

Em casa, vivemos momentos difíceis, pois o vento continuava forte e a chuva começava a cair. Víamos relâpagos e ouvíamos as trovoadas. Parecia que o mundo ia se acabar. Neste dia, meu pai chegou bem tarde, pois ele vinha de trem e em dias de chuva sempre atrasava. O vento não dava trégua e começamos a ver a sua fúria. As telhas da nossa casa (de eternit) voavam como se fossem de papelão. Todo os dois quartos ficaram inteiramente descobertos. O telhado da sala começava a querer voar, movimentando-se como se fosse onda, anunciando uma tragédia maior. Corremos para a cozinha e começamos a gritar e a rezar. Depois disso, apenas me lembro de que fomos parar em Dona Gazinha, uma senhora muito simpática que nos acolheu e em sua casa dormimos. Depois disso, não me lembro de mais nada: como voltamos, quanto tempo levou para retelhar a casa, etc.

Casa e Infância

É muito difícil dissociar a casa da nossa memória de infância, portanto de vez em quando voltarei a ela. Aliás, a casa nos acompanha a vida toda. Afinal, além de nos abrigar da chuva e do sol, ela nos protege e nos diverte (quantas vezes brincamos com ela, dentro dela, usando os seus compartimentos, suas paredes, telhados, piso, teto e todas as coisas que fazem parte dela e que também são colocadas nela?). A casa (e a falta dela) faz parte da identidade de qualquer um, pois as pessoas nos localizam, nos dizem quem somos, a partir dela e da nossa relação com ela.

Um dia desses, eu e as minhas irmãs transformamos a cabeceira da cama em cavalo. O seriado Roy Rogers nos fazia imaginar pessoas montadas em um cavalo e como não tínhamos um (só Loloba), colocávamos o travesseira dobrado sobre a cabeceira (que servia de sela) e simulávamos perseguições pelo oeste norte-americano, bem ao estilo texano.

 
Mas a nossa relação com a casa, dava-se muito mais com o seu entorno, com o quintal. Nele, as árvores se transformavam em submarinos (referência ao seriado norte-americano Viagem ao Fundo do Mar) com direito a emissão daquele barulhinho que só quem já assitistiu saberia reproduzir. No seriado, havia dois personagens de destaque:  Major Lee e o Almirante Nelson. Quem era quem na nossa brincadeira? Nós tínhamos como resolver a questão da patente. Como a minha irmã mais velha, Fátima, subia até o "olho" do araçazeiro, acabava ficando com o título de almirante e eu que ficava na metade do caminho recebia a patente de major. Minha irmã Marta era bem pequena e não subia na árvore, fazia o papel de monstro marinho.

Em dias de chuva, saíamos para brincar de colocar barquinho de papel no rego por onde escoava a água da chuva. Era um longo percurso e era muito divertido ver o barco percorrer o caminho em grande velocidade até afundar. Brincar debaixo de chuva é bom demaisssss.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A praia de Itacaranha (parte I)

A praia de Itacaranha, até os anos 80, era paradisíaca. Nos anos 70, havia dois pneus enormes de trator que ficavam na areia da praia. Servia de assento e, quando a maré estava bem alta, dava-se "caída" deles. Era um objeto estranho, não resta dúvida, mas entretia.


Quando a maré estava vazia, eu caminhava pela beira da praia para catar conchas e búzios. O sol dava nas costas, mas nem ligava, pois a distração atenuava qualquer ardor. Em geral, fazia isso pela manhã, cedo. Certa vez, catamos tanto búzios que a minha mãe fez uma cortina de fios plásticos cor de rosa que era atravessava os búzios pelas extremidades. A cortina foi afixada na passagem que ficava entre a sala e a cozinha e quando passávamos fazia um barulhinho delicioso.

A praia era um convite para uma aprendizagem de formas, cores e cheiros. As pedras, conchas, búzios tinham formas e cores diferentes e eram ora bonitas ora estranhas. A maré, por zua vez, exalava um odor que frequentemente chamávamos de "maresia". Era um cheiro que sentia de manhã cedo e nos convidava para um mergulho. Era simplesmente maravilhoso, mágico, irmos à praia de manhã cedo. Um sol matinal começava a dourar as águas e ao som da marola, nos divertíamos. Posso ouvir ainda hoje o som suave, contínuo e ritmado das ondas quando espalhavam-se na areia. Em geral, durante a semana, não havia pessoas na praia. Eventualmente um pescador ou um ou dois grupos de pessoas com crianças. De dentro d'água, víamos o trem passar. Olhávamos sempre. O trem era sempre um espetáculo à parte e também compunha o cenário daquela orla.

Como esquecer as águas cristalinas de Itacaranha? Como esquecer os cardumes que saltavam e passavam por nós? Como esquecer as águas vivas, as pinaúnas e as caravelas?

A Casa dos Mimos do Céu

Quando íamos para a Escola ou pescar siri sempre contemplávamos uma casa estilo colonial. Tinha janelas grandes, compridas e era de cor vermelho-vinho, sendo que as janelas eram emolduradas por frisos brancos. Além desse aspecto peculiar, ao lado, na área externa, enramando as grades de ferro, os mimos do céu esbanjavam beleza e esplendor róseo. Era uma visão belíssima, inesquecível. Nunca conhecemos seus moradores. A casa sempre estava fechada o que acentuava o mistério. Quem moraria ali?

domingo, 21 de novembro de 2010

Ana Clara, Cristiana e Ana Cristina

Eram três irmãs vizinhas. Elas moravam na rua paralela, onde morava também a professora Edna Cardoso. No entanto, como os nossos quintais se comunicavam por uma cerca mais ou menos aberta, permitíamos que as filhas de Dona Hilma e Seu Geraldo  passassem pelo nosso quintal, pois era mais perto para elas. Mas não era sempre, na verdade era muito raro. 

Elas eram as únicas meninas que moravam perto de nós.

Tenho uma vaga lembrança de Dona Hilma e Seu Geraldo. Lembro-me de que ela era uma morena muito bonita e ele branco muito magro (tanto que as veias ficavam expostas). A sua casa era também terreiro de candomblé. Uma vez fomos convidadas para irmos a uma das festas. Minha mãe nos levou. Algumas imagens, sons e paladares marcaram a minha experiência naquele momento: os atabaques, a dança do orixá (Seu Geraldo dançava de uma forma diferente) e o gosto da pipoca sem sal. Inicialmente fiquei feliz por receber as pipocas, mas quando coloquei na boca, vi que não tinha sal. Olhei para a minha mãe e ela disse que era assim mesmo.

Havia um pé de genipapo cujo tronco servia de cerca entre o nosso quintal e das nossas vizinhas. Sempre catávamos os genipapos que caía no chão. Mas tinha um bonito, inteiro, que estava no quintal das minhas vizinhas e todo mundo sabe que o genipapo do vizinho é sempre o mais gostoso e, por conta disso, entrei. Quando estava saindo me deparei com uma das meninas, não me lembro quem e escondi imediatamente o genipapo atrás das costas. Não me lembro do desfecho, mas a sensação de perigo e de ser flagrada me marcou profundamente.

Lembro-me que Cristiana era a mais vaidosa. Tinha pulseiras finas e douradas que balançavam e faziam um barulhinho. Era a mais extrovertida. No entanto, o nosso contato era muito pouco. A lembrança que tenho delas é de que eram muito alegres, falantes e buscavam amizade. Ana Cristina era a menor e não me lembro muito dela.

Pôr-do-Sol visto da Rua Pipira

SIRIS

Pescar siri era uma atividade muito divertida. Havia um ritual preparatório que antecedia o dia de pesca: a minha tia fazia os gererés de crochê, usando cordão. Depois disso, minha mãe costurava sacos plásticos de leite para fazer a sacola na qual os siris eram colocados. Um dia antes, minha tia (Celininha, a que era muda e surda) pegava folhas de bananeira e do talo fazia bóias em pedaços de aproximadamente 15cm a 20cm nos quais eram amarrados cordão. Para mantê-los presos ao talo liso e escorregadio da bananeira, dávamos um leve corte e fincávamos o cordão nele. No dia da pesca, bem cedo, acordávamos para colocar na ponta do cordão a carne e a pedra. Com tudo pronto, íamos para a praia que deveria estar vazia. A minha tia entendia de lua, maré cheia e vazante, então ela mesma organizava a pescaria.

Na praia, nas águas barrentas, lançávamos as iscas e esperávamos. Enquanto isso, a nossa tia nos distraía com brincadeiras, mas não permitia que fizéssemos barulho para não espantar os siris. Havia muita pedra quando a maré estava vazia. Pedras de formatos estranhos. Uma delas era revestida por um tipo de alga esponjosa, roseada, com pintinhas pretas. Pareciam perigosas, mas ao mesmo tempo belas. Olhava, admirava a sua beleza, mas não chegava perto. As pedras também eram revestidas de mariscos, siris que se entocavam nos espaços côncavos, peixes que se movimentavam nas poças de água.

Uma das coisas inesquecíveis é a sensação do siri mordendo a isca. Podia sentir pelo tremor do cordão que lá estava ele. Então, por debaixo, colocávamos o gereré para que não escapasse ao nos ver. O nosso preferido era o siri azul, pois eram os maiores e mais saborosos. Eram raros. Quando encontravámos uma fêmea com seus ovos cor de abóbora, jogávamos no mar novamente, pois a nossa tia não deixava que levássemos para casa. Dizia para nós que ali eram os futuros filhotes.

O Pôr-do-Sol

Nada marcou mais a minha vida em Itacaranha do que a paisagem e o nosso contato com a natureza. A minha mãe nunca gostou de morar lá, pelo menos no início, quando éramos pequenas, pois ela não via perspectiva de melhoria para nós, para a nossa formação. Eu, porém, alheia a suas preocupações, aproveitava as delícias da natureza. Uma delas era contemplar o pôr-do-sol da janela de minha casa. Ficava horas olhando para aquele visual e do mágico efeito que os raios faziam nas águas do mar. Havia também o pé de tamarindo que ficava na estação de trem em frente a nossa casa. O que separava a nossa casa da estação era apenas uma rua. Assim, víamos o trem chegar e partir, levando e trazendo gente.

Os raios de sol faziam efeito no tamarindeiro, sombreando-o e produzindo um prazer estético. A sua copa imensa, com folhas miúdas, era de uma beleza indescritível e quando o sol ia se pondo, ficava apenas o contorno da frondosa árvore.

Os nossos desenhos escolares eram repletos de referências à natureza. Nem é preciso dizer que o pôr-do-sol era meu tema preferido.

sábado, 20 de novembro de 2010

A Escola Cristovão Ferreira

A Escola Cristovão Ferreira era dirigida pela professora Olga, se não me engano, muito embora houvesse um diretor que eventualmente ia a escola. A presença marcante da profa. Olga ficou muito mais na memória (recentemente a encontrei no Shopping Barra e ela me contou das dificuldades de manter os alunos na escola, já que muitos não tinham o que comer. Isso foi em 1973) Fui estudar lá na 3ª série, sob o olhar cuidadoso e dedicado da profa. Noemia. A 4ª série foi no Colégio Clériston Andrade, pois queriam que no dia da inauguração houvesse alunos em sala. 

A Escola Cristovão Ferreira ficava um pouco longe de casa, mas era a única que tinha. Nos dias de chuva, devido ao barro da estrada, os nossos kichutes iam cravados de barro, um tipo de barro que colava mesmo na sola. Minha mãe nos fazia calçar sacos plásticos que eram amarrados no tornozelo, evitanto assim não apenas sujar a escola, mas a casa, ao retornarmos.

Na escola, estudei e brinquei. Lembro-me mais das brincadeiras de roda. Cantava o Hino Nacional antes de entrar em sala. O aspecto da escola era sombrio. As salas eram escuras e apertadas. No entanto, gostava dos babmbuzais que ficavam no fundo da escola e do riacho de águas cristalinas que corriam por entre a plantação de bambus. O riacho fazia barulho de água corrente. Era uma plantação fechada e, por isso, não sabíamos o que tinha adiante. Um dia descobrimos uim caminho, mas fomos proibidas de caminhar por ele porque era muito ermo.

Certa feita, houve um problema na escola e ela foi transferida para o bairro de Praia Grande, para a Escola Eduardo Dôto. Um dos momentos marcantes de minha vida foi quando, por doença de minha irmã caçula (sarampo), minha mãe não pôde me levar à escola. Minha mãe também não gostava que faltássemos às aulas. Assim, com aproximadamente 10 anos de idade, peguei o trem e fui para a escola sozinha. Para a minha decepção (e alegria de minha mãe) neste dia não houve aula, então voltei rapidamente. A sensação de passar pelo torniquete e entrar sozinha em um meio de transporte era ao mesmo tempo assustador e emocionante. Estava alegre por conseguir chegar sozinha ao meu destino, o que deve ter contribuído para a minha sempre precoce independência.